29.11.10

retrato impossível

Ninguém disse que ia ser fácil. E não é. Mas eu acreditei que sim. Ou melhor, nem levei a sério. Mesmo não levando, voltava a fazer tudo igual, a preparação podia ter ajudado. Prever. Pré-ver. Mas com pré-ver perdia o encanto do instante, o encanto do inesperado, do imprevisível e de todas as palavras começadas por i. Até da inquietação. Se não pensar é bom. Se pensar de mais, é perfeito. Mas daí vem do medo. O abismo, escuro, húmido, gelado... Os tremores. Vem o fim. Aquele fim do lado de lá. Aquele que não conhecemos e que não podemos pré-ver. E essa inquietação não é boa. Embora nos faça respirar mais forte, mais alto, mais rápido. Lembra-nos de que estamos vivos. Lembra-me de que estou viva. Acorda-me desse estado de letargia, desse não sei quê que bloqueia. Depois vem a calma, imensa, profunda. Ganho cor e recomeço a sentir-me segura. Recomeço a reconhecer-me. E a recordar-me. (Das palavras começadas com re). Respirar. Docemente como quem chama por mim. Sorrio baixinho, só para o meu coração sentir. Ninguém disse que ia ser fácil. Porque é apenas viver. Simplesmente bom.

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